Um conto

Contando…

6/7/90, 6:20.
Julho em Porto Alegre é sempre frio.
Fala-se muito do minuano. Do Nordestão.
Mas o frio que se sente não carece de vento.
Ele se instaura, conduzido pela humidade do ar.
Ele procura os caminhos mais estáticos e se instala.

Nos ossos.

Nos corredores da maternidade da Santa Casa, passeando vagarosamente sobre o piso de lajotas vermelhas, o frio passeia calmo e calculista, em buscar de algum corpo relaxado. Encontra Antônio escorado, testa encostada à parede de azulejos azuis.
O Cristo crucificado imponente na parede é indiferente a Antônio.

Uma enfermeira com passos apressados posta-se diante de Antônio e sorridente informa:
– Nasceu. É um menino!

Antônio pôe-se a caminhar seguindo a enfermeira que vai leva-lo a conhecer o ser humano recém chegado.

Antônio reflete enquanto caminha.
Será que parece comigo? Pela forma que a enfermeira anunciou se tivesse algum problema físico eu teria percebido. Deve ser perfeito. Sabe-se lá. A desgraçada fumou escondida a gravidez inteira. Maldita. Se o guri tiver qualquer problema ela vai ver.
Nem sei o que vai ser daqui pra frente. Vou me separar. Não me acerto com a mulher. O guri não tem culpa. Tinha que nascer. Ta aí, nasceu!
Oscar. Vai ser Oscar.
Meu primeiro filho e nem sei se vou continuar com a mãe.
Mas pudera a mulher é doida. Ora fumar cigarros! Falei desde o início que não gostava. Beijar mulher que fuma é igual beijar um cinzeiro. Quando disse que tinha emprenhado já alertei que não queria saber de cigarro. Me veio com aquela cara cínica dizendo que quando conheci ela já fumava. Nada é pra sempre. Nem o vício. Nem o casamento. Mas agora tá aí o guri. Não tem o que fazer. Independente da mãe é meu filho.

Antônio caminha rápido. Nervoso. Pensando todas essas coisas e sem desconcentrar olha a bunda da enfermeira que anda a sua frente.
[Deve haver uma bela bundinha embaixo daquela roupa de enfermeira.]

Dobra a esquerda. Outro corredor.

Barbaridade, não chega nunca! Pensa o esbaforido Antônio.
Será que o guri é forte? Deus queira que sim. Tomara ser parecido comigo. Oscar. Vai ser colorado. E vai gostar do Brizola.
Se for parecido comigo não é de todo um ruim. Não sou um artista, mas também não sirvo pra mal acabado. Deus sabe o que faz. Do jeito que for é meu filho e daquela viciada! Cristo.

A enfermeira estaqueia diante da porta branca de madeira. Chegou ao quarto pra onde mandaram a criança. Em breve a mãe deve vir.

Será que o guri é parecido comigo?

Antônio agradece com um movimento de cabeça. Se estivesse de chapéu teria tocado a aba, numa cerimônia de agradecimento à enfermeira. Ela gira sobre os quadris e se vai pelo corredor. A última olhada praquela bundinha! Deve ter uma bundinha embaixo daquela roupa!

Entra pelo quarto. Num berço de acrílico ao lado da cama que em breve terá a mãe um xale verde. Tudo era verde, não queriam saber o sexo. Enrolado naquela xale tinha uma criança. Mais xale que criança. Antônio se aproximou. Uma cabecinha pequena no meio dos panos e pedaços dos dedinhos minúsculos. A criança é menor que o normal. Na borda do berço de acrílico um esparadrapo com anotações em caneta esferográfica: Oscar Gonçalves | 2300 kgs | 46 cm.

Meu Deus! Pasma o Antônio.
É um rato. O guri é miúdo.
Deve ser culpa do cigarro daquela retardada.
Desgraçada minguou o guri. Vai saber se não vai ter problema respiratório.

Desenrolou o xale e verificou que se tratava de uma criança perfeita. Pequena, mas perfeita.

Após a constatação da precariedade de peso e tamanho Antônio deu-se conta de que estava diante do primeiro filho. Um varão. Um varão assinalado.

Sorriu timidamente olhando pro piá.
Vai ser colorado!
Vai gostar do Brizola.