Suspiro

Tenho bronca comigo pela minha incapacidade técnica de fazer coisas melhores nas minhas composições. Não tenho problemas com depender de terceiros pra transformar minhas ideias musicais em trilhas graváveis e executáveis. Não tenho um ego tão inflado assim.

Tenho, sim, autopenalização por às vezes me vir um verso, uma frase, e não conseguir reproduzir exatamente aquela intenção num instrumento. Muita coisa bacana e mais próxima do meu bolsão de ideias/influências se perde por eu não conseguir trazer as intenções pras ondas mecânicas.

 Ainda assim, às vezes temos as surpresas que nascem da despretensão.

Noutro dia gravei uns versos no gravador do telefone, pra não perder a frase. O objetivo era guardar o texto, porque provavelmente deve ter me vindo enquanto eu dirigia e essa impressão se fortalece quando ouço a gravação e tem sons de trânsito.

Mas às vezes o texto não vem sozinho. Aquela configuração de palavras, o estado de espírito, as emoções que projetaram aquela frase podem trazer consigo uma melodia.

Parcos versos aqueles.

Poucas palavras.

Pequenas frases.

Diferente dos textos que normalmente cunho, estas frases eram de derramamento de gratidão. Uma declaração de amor. Provável que por aquele dia eu deva ter me sentido amado demais. A Carina tem dessas coisas. Faz polimentos inesperados e periódicos nessa pedra bruta que fala e escreve.

Final de semana eu me aproveito melhor do violão. Fragmentos de intimidade. Por vezes só por andar junto, sem endereço certo. E dessa incerteza foi que me veio um Là Maior… seguido de um Fá sustenido menor, num andamento moroso, amoroso, acolhedor. Depositei – sabe-se lá o porquê – aquela melodia do texto gravado outrora na sequência de acordes básicos.

Deixei a voz se acomodar numa estrutura de Là menor grave, preguiçosa. Pouco ar. Quase sem força. 

Repeti as parcas palavras:

“Eu não tenho mais

Do que puro amor

Pra te oferecer

Pra te entregar

Por toda a minha vida

Tudo o que eu quis ter

Encontrei contigo

Encontrei em ti”  

A sala se iluminou por aquele encontro.

Uma canção iluminava. Eu me satisfiz e irracionalmente soltei uma sequência de acordes feita de um Ré maior, seguido de um Dó sustenido menor, seguido daquele Fá sustenido menor, acabando no Lá maior imponente… melódico e harmonioso, duma beleza e de uma fragilidade que pedia uma tormenta…

Veio.

C# – D – D#, quase um susto. Pra depois repousar no Lá maior calmo. Tranquilo. Acolhedor. 

Talvez seja uma dessas micro canções que temos chamado de vinhetas, que irão ornamentar o disco o Dia da caça.

É pra ti Carina, o meu amor, o meu exagero e – também – essa canção. Tomara o mundo não acabar até que seja gravada e ouvida pelo menos uma vez.