Limitado

O Dia da Caça segue sendo construída a muitas mãos, vários corações. Uma música escrita a várias mãos, observada a muitos pares de olhos, esperada por um pequeno e seleto grupo de interessados.

E a forma como se escreve esta história é apaixonante.

Só tem verdades. E as melhores histórias são as escritas com paixão na ponta da pena e verdades no coração.

Chegou o a hora de gravarmos os violões.

É sabido que tenho muitas limitações com violão e guitarra. Tenho alguns recursos a mais como vocalista, por tempo de estrada e desafios aceitos com gosto pelo estrago, mas como instrumentista, sempre fui, declaradamente uma lástima.

Comecei tarde. Faltou grana. Sobrou loucura. Faltou tempo. Nunca pude ter as minhas tão sonhadas aulas de violão e guitarra. Hoje as outras prioridades tomam os tostões que deveriam ir pra educação musical. Tenho comprado as armas, mas ainda não fiz as aulas de tiro. Se depender de mim a caçada é um fracasso, mas tenho um bom arsenal e sou amigo de bons atiradores. Vou atrás do bando levando o café, cantando cantigas antigas, fazendo piadas, carregando os apetrechos e carregando as munições. Talvez daqui uns dias eu exponha a caça, sem ter dado muitos tiros. Mas eu gosto da caçada. Principalmente, porque gosto de gente e o entrevero me anima demais.

Mas nesta nova fase Voluttariana eu tenho que fazer algo novo. Me agarrar na minha paixão e empunhar o violão e a guitarra pra despejar alguns acordes. Pode não ser um primor pela técnica, mas no que depender da vontade e da paixão, me chama que eu vou!

Pra mim, gravar o violão nesta música por si só já um motivo de apreensão e nervosismo.

O Zimath, conhecedor das minhas limitações, músico e produtor cancheiro, deu uma orientação valiosíssima: – Baixe o audacity, toque bastante a música e grave você tocando. Grave pelo menos umas 10 vezes.

Eu acolhi a recomendação, o fiz no último final de semana e em alguns outros momentos em que eu não fosse enlouquecer ninguém dentro de casa  tocando a mesma música infinitamente.  Mas gravar é outra coisa. Poderíamos nos usar do recurso de gravar uma passagem e depois dar um ‘copia e cola’. Poderíamos inclusive terceirizar para outro integrante a minha função, uma vez que eu não fizesse satisfatoriamente o registro. Mas encaramos a empreitada de eu tentar gravar o violão.

– Volta. Repete. Valendo. Agora a boa. Tá saindo do tempo. Tenta ir com mais calma. Valendo. Agora a boa!

A cada erro de execução um aumento na barrinha da ansiedade e um ‘tantão’ no nervosismo. Passa aquela ideia de dizer: – vem aqui e grava você. Não vai rolar!

Passa aquela outra de dizer: Pra que violão mesmo?

Mas daí tem o Ronaldo no outro lado do vidro acreditando sempre. Fazendo movimentos demasiadamente desengonçados ditando o ritmo. Eu lia o pensamento dele atrás do vidro: “- Vai, vai, vai, vai dar, agora vai dar…”.

Por um momento, em que a desistência quase me abraçou mais carinhosamente eu pensei que o Ronaldo já deve ter gravado muita gente boa ali, além do Thomé, do Tiago e do Parffit. Imagina que saco o tempo perdido naquela fé.

Mas há que se ter fé.

Estão gravados os violões. Uma bela fração da minha energia da semana deixei lá naquela sala tentando vencer a minha descrença, minha limitação e tentando emprestar pra música a minha paixão.

Eu ainda acho que um carrinho na linha de fundo vale mais que uma “caneta” no meio de campo. 

Se vai ficar bom, vocês poderão julgar em breve. O resto todo tá um espetáculo. A melhor gravação que já fiz na vida.

E nesse momento da caçada, eu dei os primeiros tiros, olhei pra trás com um sorriso satisfeito, de guri que faz o primeiro gol e procura o pai com o olhar pra ganhar uma aprovação com aceno de cabeça.