Irmãos Erzinger

O Blog tem a função de ser a brasinha acesa pra nunca deixar morrer essa chama chamada Voluttà. E nessa história contada com capítulos quase semanais, as idiossincrasias desse que vos escreve, se somam as linhas (eventuais) da Carina, sobre a construção da banda mais desconhecida do sul do mundo. Isso compreende as pessoas que integram ou integraram esse grupo, bem como as andanças por essa existência. E nessas andanças aparecem pessoas incríveis, que não poderiam passar batido por esse futuro livro.

Sim, haverá um capítulo chamado: IRMÃOS ERZINGER.

Lá por 1998 eu andava procurando me achar (no sentido figurado). Tava bem animado com a banda recém formada chamada Ilusão Sonora. Mas havia necessidade de dar sentido pra vida como indivíduo. Seria necessário começar a construir uma pessoa, reconstruir um indivíduo. Aquele passeio pelo submundo, vivido entre 1994 e 1997 parecia terminado. Mas seria como dar liberdade a um escravo: Está livre, mas não tem dentes, não sabe ler, não tem casa e não terá perspectiva alguma… por sorte, eu ainda tinha os dois pés.

Pra entender o devaneio, sugiro uma leitura complementar: http://bandavolutta.com/blog/artigo-v/ 

Voltar a vender frutas não parecia uma boa pedida. Toda a perdição estava por lá, pela praça Parobé. A venda de roupas, calçados, panos de prato e perfumes não parecia um caminho seguro. Os churrasquinhos de rua na esquina da Avenida Rócio com a Tenente Alpoim não pareciam projetar um futuro mais seguro. E a distribuição de pizzas congeladas não tinha “vingado”.

O Sérgio, amigo da época, me entregou um recorte de jornal, com um anuncio “tijolinho” dizendo que uma empresa procurava vendedores no centro de Porto Alegre. Eu que tinha tempo e nada pra perder resolvi ir lá pra “ver qual era = Ver qualé”

Cheguei no endereço, Rua da Praia, e tinha uma fila de pessoas na calçada, de pé, esperando pra entender a proposta que a Zero Hora havia veiculado. Gente de todo tipo, jovens, velhos, homens, mulheres. Fiz perguntas pra me certificar sobre o objetivo da fila e como reafirmava minha impressão assumi o posto de última pessoa. 

Mas este posto durou pouco, em seguida um senhor muito bem trajado, me perguntou pra que era aquela fila. Com uma carga de desdém (eu era bastante preconceituoso e homofóbico na época) eu achei aquele senhor meio afeminado. Começou a fazer perguntas sobre a vaga e eu sem olhar o homem na cara fui respondendo a contragosto. Mas ele parecia interessado demais na função até que começou a fazer perguntas sobre mim. Fiquei ainda mais desconfortável, beirando a rispidez. Mais pessoas entraram na fila atrás dele. E a fila não andava.

Quando a minha falta de paciência quase saía pelos meus poros e pela minha língua, o homem se apresentou: – Meu nome é Gilberto, tenho uma escola aqui perto, na Rua Doutor Flores, se tu quiser ir lá conversar pra trabalhar pra mim, está aqui meu cartão.

Veado! – Pensei imediatamente e coloquei aquele maldito cartão em algum bolso. (O preconceito já passou por aqui.)

Esperei na fila umas duas horas até integrar um grupo de pessoas que ouviria a proposta anunciada numa salinha apertada, com algumas cadeiras plásticas no primeiro andar daquele prédio no centro de Porto Alegre.

O cara que veio trazer a “boa nova” era um castelhano, de uma empresa igualmente castelhana, que falava em portunhol bem compreensível que se tratava de venda de porta-a-porta, de artigos vindos do Paraguai, brinquedos e utilitários domésticos de qualidade duvidosa. Não haveria salário, apenas o ganho sobre peças vendidas. Mas era “Uma grande oportunidade”. Ganharíamos ainda um ticket para almoço, me lembro que o valor era algo em torno de uns 7 dinheiros! Daria pra fazer um lanche.

Mesmo antes do castelhano terminar o discurso eu já estava decidido não participar. Só não levantei no meio da conversa pra ir embora porque naquele dia eu não tava disposto a uma briga, porque pela falta de respeito e educação eu já estava habilitado a levantar. 

Saí dali cabisbaixo em direção a Marechal Floriano, onde subindo eu chegaria na esquina com a Salgado Filho, onde eu tomaria meu ônibus, Linha Santa Catarina, pra voltar pra casa. Quando pus a mão nos bolsos, toquei o maldito cartão. Olhei, refleti, e a frustração da proposta de emprego havia me gerado uma vontadezinha de brigar. (Nessa época eu gostava de brigar!!)

Resolvi ir no Gilberto.  

Chegando lá, um prédio ao lado de uma loja Arapuã, na Rua Doutor Flores. Uma porta pequena, com uma plaquinha minúscula indicando que eu estava na Data Center Escola de Informática. Subi a escada e quando cheguei ao término da escada tinha uma mesa com uma mulher baixinha, de óculos, cara de brava sentada e atendendo ao telefone atabalhoada.

Disse que tinha recebido o cartão de um senhor que tinha uma vaga de emprego. Quando ela ia começar a falar o senhor apareceu atrás dela dizendo: – Dulce, encontrei este rapaz e achei que ele poderia ser nosso vendedor.

Ela me olhou, eu bem mau vestido, sempre usava tênis e camiseta surrada, e perguntou: – o que tu sabe de informática?

Respondi imediatamente com um sorrisão: – Nada! 

Ela olhou pro Gilberto como quem diz: “que me adianta esse inútil aqui?” Afinal, estávamos numa escola de informática.

Eles cochicharam alguma coisa e ela me disse: – Pega essas fitas aqui (pegou umas vídeo aulas) assiste tudo na sala que o Gilberto vai te levar, se no final tu souber alguma coisa, a gente conversa.

Eu tava ali, sem perspectiva, podendo assistir uns vídeos e talvez aprender alguma coisa de novo. Topei. Tinha uma salinha pequena no final de um corredor com uma TV e um vídeo cassete, com uma cadeira pouco confortável.

Ele me disse como usar o aparelho, e colocou as fitas em cima da TV numa ordem que eu deveria assistir: IPD – Introdução ao processamento de dados, depois Windows, depois Word e por fim Excel.

Eu tinha a impressão de que aquilo era uma filmagem velha, antiga. Imaginem o quanto isso era defasado, considerando a minha falta de conhecimento sobre o tema.

Assisti aos vídeos que tinham em torno de 45 minutos cada. Já era de tarde quando terminei e fui entregar as fitas na recepção. A mesma mulher, chamada Dulce, pareceu incrédula quando eu ressurgi. Devia ter esquecido que eu estava lá.

Pediu pra eu sentar e perguntou se eu queria comer. Disse que não. Tava morrendo de fome, mas achei estranho ela me oferecer comida. Eu era um bicho acuado.

Ela perguntou se pra trabalhar eu tirava o brinco. Eu respondi que sim. Usava uma argola e esqueci de tirar antes de sair de casa.

Depois pediu pra eu falar sobre os vídeos que eu tinha assistido.

Eu que já era meio ligado fiz um resumo pra ela com os recursos que eu tinha. Me lembro de ficar todo orgulhoso por dizer que excel era uma PLANILHA ELETRÔNICA. Que troço chique!

Ela perguntou se eu sabia atender telefone. Se eu podia trabalhar o dia inteiro. Onde eu morava. Eu com o brinco de argola e o sorriso no rosto respondia tudinho. A mulher era meio doida, mas me fazia ficar a vontade. No final ela disse: Então amanhã tu volta, traz esses documentos aqui (me deu um retangulozinho de papel com tudo escrito) e começa a trabalhar. Eu tenho almoço aqui, a comida da Jurema é um horror mas ninguém morre de fome (Dona Jurema era a mãe da Dulce). O Salário era R$ 314,00. Mas tinha prêmios por cursos vendidos e um valor para cada contrato.

Só pelo rango eu já ia, imagina com mais R$ 314,00 !!!! Irrecusável!!!

No dia seguinte tava lá, o mesmo sorriso, sem o brinco.

Rapidamente descobri que o Gilberto era marido da Dulce. Que eles tinha uma filha – Jéssica – de uns 3 anos e o alemãozinho que estava sentado na recepção era o atendente Felipe.

Fiquei cuidando tudo o que ele fazia. Como fazia. Como conversava com as pessoas, como atendia o telefone, como escrevia. Tudo. Ele me olhava desconfiado. Ali fiquei observando uma manhã inteira, até que chegou as 10h, quando trocava a primeira turma. Muita gente saindo e muita gente chegando. Três andares daquele prédio eram da Dulce. O Felipe de desdobrava, dava bons dias animados, olhava fichas, atendia telefones, conversava com as pessoas e eu pensando: Caralho, que loucura! Não vou saber fazer isso!

Chegou meio dia e mais uma debandada de alunos. O próprio Felipe me levou no terceiro andar pra almoçar a comida feita pela Dona Jurema. Os pratos era de plástico e também os copos e a jarra de suco. Naquele almoço eu soube que a Dulce era realmente maluca, que ninguém aguentava trabalhar ali mais que uma semana, por isso estavam testando até a mim que não sabia sobre informática. Quem não tem cão caça com o gato! (pra não perder a oportunidade)

Desci pra o turno da tarde “Suuuuuuuuper empolgado”. Mas como eu tinha uma semana pra desistir, resolvi que até lá, eu ia fazer o que tinha que ser feito. No mesmo dia atendi telefones, aprendi a preencher contratos e fazer as fichinhas dos alunos.

No final daquela semana ainda não tinha ido embora.

Havia dois magrões bem brancos, um bem alto e outro nem tanto que passavam por ali sempre depois do meio dia. Um dia o mais baixo trocou umas palavras comigo. Sobre música. Eu devia ter ido com camiseta de banda em algum dia e ele percebeu o link. Ele era professor da escola, o magrão mais alto também, eram irmãos. Os irmãos ERZINGER.

Dois caras bonitões, sempre bem arrumados. Eram sempre simpáticos comigo e às vezes conversávamos por uns 5 minutos, eu na minha mesa e eles já descendo a escada da escola. Ambos faziam faculdade e davam aula somente pela manhã. Não lembro se a noite também.

Um dia o Marcelo chegou com um fita cassete e me disse: “Isso aqui é puro rock n´roll, a melhor banda de todos os tempos.”

Li os escritos e se tratava dos Rolling Stones. Gastei aquela fita e nossa amizade tomou corpo, o Marcelo seguidamente falava das bandas que gostava, eu falava do Pearl Jam, o Ricardo Erzinger falava dos Beatles. Mas nossas conversas seguiam sendo rápidas.

O Marcelo começou a me presentear com discos e compilações dos Stones. Um dia me deu uma fita de Black Crowes e Lenny Kravitz. Noutro dia me deu uma de Iggy Pop.

Eu tava numa fase Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii e Pearl Jam. Gostava de Van Halen também e Guns n´roses. Mas os Stones me pegaram forte.

Em alguns meses eu ganhava um salário bem legal. Vendia muitos cursos. Era um excelente vendedor de cursos de informática. Tinha feito os cursos de IPD, Windows, Word, Excel e Internet na escola. Aos sábados eu fazia Manutenção de Hardware (curso novo).

Depois fiz Pagemaker, Photoshop e Corel. Arranjava tempo e fazia a noite, ou aos sábados, quando eu normalmente não trabalhava.

Com a grana que eu ganhava, eu comecei a comprar discos. Que legal que era poder ir na Stoned num sábado de manhã e comprar dois, três discos de uma só vez. Só sentia falta de mais tempo pra ouvir meus discos.

Comprava camisetas de bandas. Camisetas pretas e tinha uma profissão: vendedor de cursos de informática.

Ocorre que a Dulce era muito maluca mesmo e eu fui embora da empresa umas três vezes, e ela sempre me recontratava uns dias depois. Ela me xingava, eu que era bicho não aceitava, virava as costas e ia embora. Mas quando eu ia embora ela sentia falta dos tantos cursos que eu vendia e eu sentia falta do dinheiro que ganhava trabalhando pra ela.

Numa dessas idas o Marcelo me disse que estavam trabalhando noutra escola e que teriam vaga lá pra mim. Se eu topava ir conhecer. Fui e logo fui efetivado. Nums dias surgiu a bomba. Eles haviam pego um contrato gigante pra ministrar cursos na Santa Casa de misericórdia para todos os médicos(as) e enfermeiros(as) do complexo. Aquele contrato duraria quase um ano e faltaria professores pra ministrar os cursos.

Numa bela tarde o Marcelo e o Ricardo me disseram que tinham sugerido meu nome para o Rildo (dono da escola) pra eu dar aula junto com eles.

Eu fiquei pasmo e com medo, obviamente. Como eu poderia fazer uma coisa tão importante que eu mal dominava pra meu uso?

Aquilo era uma loucura!

Mas eles disseram que iriam me ensinar tudo, que me ajudariam e eu seria inicialmente monitor, junto do instrutor, que sempre seriam um dos dois ou o Marcos Victoria.

Algumas visitas na casa do Marcelo e do Ricardo, algumas apostilas, algumas tardes estudando na escola mesmo. Um dia o Marcelo veio cheio de dedos e perguntou se eu me ofenderia se ele me desse umas camisas de botão que ele tinha. Bem novinhas. Eu disse que não.

Na real, eu não usava camisas porque não tinha. Por isso só as camisetas.

Meses depois eu estava ajudando a dar aulas a muitos médicos e enfermeiros de todo o complexo da Santa Casa, um dos maiores do país, sabendo falar com as pessoas, ganhando um salário digno e descente, usando camisas de botão. Ganhei um amor tremendo pelo lance de dar aula. Comecei a construir naquele momento a ideia de ser professor de historia, que eu gostava. Queria terminar o segundo grau. Voltar a estudar. Se eu voltasse a estudar teria roupas legais pra me sentir inserido, tinha várias camisas que o Marcelo tinha me dado da Ellus e da Zoomp.

No meio do ano de 1999, que não teve o Bug do milênio, eu era uma outra pessoa. Eu tinha até sonhos. E onde quer que eu fosse eu usava camisas como as do Marcelo. Eu gostava de Elástica como o Ricardo. Na cerimônia de encerramento do curso ganhei um boton da Santa Casa, como agradecimento pelo trabalho prestado.

A amizade do Marcelo e do Ricardo, os irmãos Erzinger, me trouxe dignidade. É o boton que eu ostento lustrado nessa caminhada.

Mas, como esse período pra mim ainda era de perdas e despedidas, mais uma vez eu perdi.

Naquele ano eles foram embora de Porto Alegre. As coisas tinham mudado, eles montariam a própria escola em uma cidade chamada Joinville. Tive que olhar num mapa pra saber onde era.

No dia da partida fui até a rodoviária. Chorei a partida de amigos muito importantes. Eu parecia começar a ter uma família e mais uma vez parte dela partia. Fiquei triste um tempo, depois trocamos cartas, pelo correio.

Voltei a estudar. Me apaixonei ainda mais por história. Comprei livros, discos.

O que eu não esperava era que um dia eu me despediria de Porto Alegre pra morar em Joinville.

Camaradas Erzinger, obrigado por tudo. Tem sido uma caminhada e tanto!

O Dia da Caça, também é por vocês!