Feminino

“Sou um homem feminino. Não nego o meu lado masculino.”

A exemplo da maioria da população masculina brasileira, já tive muitas atitudes e pensamentos machistas ao longo desses 40 invernos e não acredito que não vá, por vez ou outra cair no mesmo buraco. Mas essencialmente sou feminino. Um feminista.

Em muito isso se dá pela presença da Carina na minha vida. Uma feminazi. Militante e atuante.

Mas esse convívio só ajudou a reforçar o que a minha natureza me apresentou constantemente.

Das afirmações que posso fazer categoricamente sobre o tema, a que mais me agrada é: TEM DIFERENÇA SIM.

O mercado, o marketing, a mídia, a moda e a cultura global milenar de valorização masculina faz diferenças. Diminui a mulher, aumenta o homem e a tentativa de igualdade ainda é um discurso bonito de baixa aplicabilidade.

Poderíamos discorrer sobre o assunto demoradamente nadando apenas pela superfície. Se observarmos a profundidade que o tema pode oferecer, bem, daí precisamos de alguns litros de mate e café pra cansar a conversa.

Mas lá vem o Lauro com as idiossincrasias dele e projetar um assunto tão importante pra vida dele e usar os seus exemplos pra ilustrar a história do mundo.

Mas eu corro riscos. Inclusive, posso ser punido no futuro por este texto, caso venha ser um dos escolhidos para integrar nosso livro de “causos”.

Fui criado por mulheres. Vivi rodeado por elas. E são as histórias delas que me fortalecem. Eu sou um mero catalisador.

Em meio a tantos casos recentes de suicídio, faço deste texto aqui o meu suicídio como indivíduo macho, gaúcho macho.

Fui criado por uma mulher integral. Dona Iracema. Dona de casa. Sem ofício. Sem estudo. De Poucas letras. Minha avó materna. Mãe da Dona Vera. Dona de casa. Ex-diarista. Mãe de 6 filhos, este que vos escreve e mais 5 meninas. Eu disse CINCO!

A Dona Iracema comeu o pão que o Diabo amassou com um marido mulherengo, jogador viciado, gaúcho macho errático. Tratava ela como um produto e vez em quando dava uns petelecos nela. Ela cuidava da casa, dos filhos, dos netos e do marido pouco presente. Maldito Derli, bateu nela até eu completar 13 anos. Adoro essa idade. Nasceu o Lauro contestador. Me lembro de ter acabado com a farra do velho quando atingi meus pouco mais 1,60cm de altura e meus zilhões de Kilotons de ódio. Até 1994 ela não mais foi subjulgada por ele.

Eu homenageei ele no primeiro disco da Voluttà, na debochada e provocante DEAR LEE. Minha zombada ao Derli. Sei que ainda vou pagar por isso, mas essa conta pago com gosto, sou um homem feminino. 

A Iracema me amava tanto, e queria tanto que eu fosse um bom homem, que me fazia todas as vontades, dentro das limitações. Comprava-me livros, cadernos de caligrafia.

Cresci numa casa repleta de mulheres e projetinhos de mulheres. Na medida em que minhas irmãs iam nascendo, vinham morar ao redor da saia da Dona Iracema. Adriana, tinha vindo antes de mim, Shirley, Nata… Meus tios tiveram filhos, alguns viveram também ao redor da Iracema e por consequência, ao meu redor, assim foram a Aline, a Paula, a Nataly, a Gisele. 

Quando completei 14 anos o caos me pegou, gerei uma criança de uma relação fugaz, que em 1992 foi morar na casa da Iracema também, a Mabi.

Por essa época eu descobri as paixões da carne, comecei as ter os namoricos, as transas e os namoros distantes, visto que nenhuma menina da minha idade tinha interesse em namorar seriamente um cara com menos de 20 anos e com uma filha, sem nada para oferecer.

Em 2005 a vida me deu a Laura e em 2007 a Lívia.

As vivi intensamente enquanto pudemos morar juntos.

Sou perito em trocar fraldas, vestir roupinhas de garotas, passar pomadas para evitar assaduras, aliviar dores de cólicas intestinais.

Em 2002 me tornei padrinho da minha sobrinha Shayane, que enquanto criança me amava como pai. Eu fazia ela dormir. Cantava pra ela dormir uma música do filme O Tigrão, da Disney, que no Brasil tinha uma trilha gravada pelo Ivan Lins e pelo Maurício Manieri. Ela pedia pra eu cantar pra ela. Foi comigo que ela aprendeu a caminhar. Eu gostava de fotografar ela e ela fazia poses tímidas.

Em 2011 me apaixonei por uma feminazi de carteirinha com quem vivo feliz até hoje. 

Neste julho último recebi uma mensagem num sábado via whatsapp. Dizia: “Pai, tenho uma novidade. Virei mocinha” Na hora eu liguei. Precisava ouvir a voz, precisava sentir as emoções dela. Ela ainda tava meio confusa sobre aquilo ser legal porque ela estava crescendo e sobre aquilo ser ruim porque ela estava envelhecendo.

Falei sobre a importância daquele momento, em que ela começa um novo ciclo na vida. Das mudanças no corpo e naturalidade com que isso deve ser encarado, sem – em momento algum – interromper a vida infantil dela. Falei sobre as espinhas e as “peitcholas”.

Fiquei feliz por minha filha vir dividir esse momento da vida dela comigo.

Nós preparamos o campo.

Quero que ela saiba que o pai dela está pra ela integralmente a disposição, sem gênero e sem idade. Se precisar virar o machão violento e desmedido pra proteger ela, tenho todos os drives instalados. Se precisar passar o dia no salão fazendo o cabelo e dando um trato no visual, tenho tempo.

Quero que minhas filhas entendam que elas merecem respeito, direitos iguais, equidade nas relações afetivas, comerciais, cibernéticas. Quero que elas se sintam fortes e bonitas. Que se amem e sejam amadas.

Filha, se um dia ler esse texto, e chegar nesse ponto, cheia de cólera pela exposição ofertada pelo autor, me desculpe. É que eu queria dividir um dos momentos mais bonitos da minha vida.

“Se precisar chorar me liga, se precisar brigar me espera”

Seguimos juntos, lado a lado.